A Quaresma é tempo de conversão. Durante quarenta dias, a Igreja nos conduz por um caminho de oração, jejum e caridade. Não se trata apenas de uma mudança interior, mas de uma transformação que se traduz em compromisso concreto.
Neste ano, a Campanha da Fraternidade nos convida a olhar com mais atenção para a realidade da moradia. Mesmo em nossa diocese, onde talvez não tenhamos grandes realidades de favelização (como nas grandes capitais), não podemos ignorar os irmãos e irmãs que vivem nas ruas, em cortiços ou em construções abandonadas. São situações que desafiam nossa fé e nossa fraternidade.
Logo no início do Texto-Base, a Igreja nos orienta: “assim, não esgotaremos, evidentemente, a questão da moradia, mas queremos desencadear um processo de leitura, meditação, reflexão, oração e ação sobre esta gravíssima questão que desafia a nossa fraternidade. Segundo São João Paulo II, ‘uma das questões sociais mais graves da atualidade’, ‘a falta de habitação, que é um problema de per si muito grave, deve ser considerada como o sinal e a síntese de uma série de insuficiências econômicas, sociais e culturais ou simplesmente humanas’ ”(CF 2026, n. 15)
A Campanha não pretende esgotar o tema, mas provocar um processo de reflexão. E este processo passa necessariamente pela Quaresma, tempo favorável para rever atitudes e renovar compromissos.
O Texto-Base aprofunda ainda mais essa reflexão quando afirma: “Estamos em uma realidade tão marcada pela lógica do pecado e suas consequências — como as que estamos analisando aqui: a ferida na dignidade do homem, da mulher e da família; ela está, muitas vezes, nas estruturas onde pisamos e nos movemos — que muitas vezes não a enxergamos como pecado, achando tal realidade normal, participando do pecado sem mesmo nos darmos conta disso — seja para denunciá-lo, confessá-lo, redimi-lo dentro do mistério da salvação proporcionada gratuitamente por Deus aos seus filhos e filhas.”(CF 2026, n. 114)
Ele nos alerta para um risco espiritual: acostumar-se com a injustiça. Quando a falta de moradia digna se torna algo “normal”, deixamos de percebê-la como ferida, como pecado estrutural, como clamor que sobe aos céus. Nesta quaresma peçamos a Deus para abrir os nossos olhos em relação as pessoas que estão sem casa. A oração não pode nos afastar da realidade — ela precisa nos fazer enxergá-la com os olhos de Deus. Rezar pela moradia digna é: pedir um coração sensível, suplicar sabedoria às autoridades, fortalecer a ação das comunidades, e assumir nossa responsabilidade cristã.
Mesmo nas menores cidades de nossa Diocese, há irmãos que não têm onde reclinar a cabeça. Não podemos ignorar essa dor. Precisamos viver uma igreja que seja casa A Campanha da Fraternidade nos convida a transformar nossas comunidades em espaços de acolhida, escuta e compromisso. Se alguém não tem casa, que ao menos encontre na Igreja um lugar onde se sinta visto, respeitado e amado.
Que esta Quaresma nos conduza a uma Santa Páscoa com oração sincera, com caridade ativa, com fraternidade verdadeira. Que o Senhor nos conceda um coração que não se acostume com a exclusão, mas seja tocado pela compaixão.
Boa e santa quaresma para todos nós.
*Padre Edgar Souza Lima é assessor Diocesano da Campanha da Fraternidade
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