Felinofobia, por padre Charles Borg

Fobia insinua intolerância! Pessoas que sofrem com algum tipo de fobia costumam reagir com agressividade – variável – quando enfrentam a causa do distúrbio. O receio, fundado, diante de possíveis reações agressivas quando o assunto é as preferencias sexuais de indivíduos explica as agitadas discussões em torno do tema. É fato estatístico que gays, lésbicas e integrantes outros LGBT+ têm sido vítimas de covardes e frequentes ataques, motivados por sentimentos de intolerância.

A polarização cultural, típica dos últimos tempos, dificulta serena reflexão sobre o complexo tema. O lobby midiático induz o sujeito a se identificar ou a favor ou contra determinadas tendências. Em clima tenso e passional, o debate fica, por obvio, prejudicado, emperrando entendimentos, viciando argumentos e turvando exposições, como fica evidenciado pela recente polêmica que seguiu a manifestação do jogador de vôlei Maurício de Sousa.

É falso defender que a questão das preferências sexuais é tema recente. Cidadãos homossexuais sempre integraram o convívio social. Durante séculos foram vítimas de preconceitos e perseguições, inclusive por motivos morais. As arbitrárias e brutais atrocidades praticadas pelo nazismo, afetando vários segmentos da vida social, inspiraram, ao final da II Guerra, o movimento dos direitos humanos, reconhecendo a dignidade da pessoa humana independente de qualquer configuração, seja de natureza racial, de preferência sexual ou opção religiosa. A racionalidade deste básico princípio, garantindo legitimo espaço e consideração digna na sociedade para esses grupos classificados como minorias, representa significativo avanço na humanização do convívio entre as pessoas. É preciso muito mais que legislação para mudar mentalidades, todavia. Lamentavelmente, séculos de preconceito e de incompreensão continuam ditando comportamentos discriminatórios e reações intolerantes. Supostamente para defender a moral e os bons costumes homossexuais continuam recebendo tratamento marginal, figuram como motivo de piadas, ofensivas em sua maioria.

Em suma, incompreendidos e debochados. Sensível a esta situação de humilhação, incompatível com a moral evangélica, a teologia cristã, católica e protestante, assume posicionamento corajoso, reparando, inclusive, anteriores orientações de exclusão e condenação. Em documentos oficiais, a atual moral cristã, reconhece aos homossexuais seu direito a existir, abstém-se não somente a não emitir julgamentos morais, como a reconhecer enfaticamente sua condição de filhos/filhas de Deus, amados pelo Eterno Pai. Ecoou universalmente a postura do papa Francisco recusando-se a pronunciar condenação moral contra homossexuais.

Esta situação racional e teologicamente favorável fomenta o lobby cujo objetivo parece querer impor sobre a sociedade incondicional e ampla aceitação das teses homossexuais com seus inevitáveis desdobramentos. Criminaliza-se quem pensa diferente! Desqualificam-se sumariamente argumentos contrários. Reconhecer e defender o direito de existir não implica necessariamente aderir e aprovar. Referencial permanece a sentença de Voltaire: discordo de sua tese, mas defendo até a morte seu direito de expô-la! Emerge a crucial questão da liberdade de expressão. Reserva-se aos que não compactuam com as teses e os modos homossexuais o direito de manifestar suas convicções, resguardando sempre o respeito e a civilidade.

A livre e respeitosa divergência alimenta a democracia e ajuda a enriquecer o entendimento. Tolher unilateralmente o direito de manifestação empobrece o debate e introduz o monopólio ideológico. Abre-se caminho, ironia a parte, para a implantação, entre outros, da felinofobia, criminalizando todo cidadão que não gosta de gatos, mesmo que os não maltrate!

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