Gestação, artigo semanal do padre Charles Borg

Será feliz o Natal? As reações variam, dependendo dos interlocutores. Para um bom número de cidadãos, os festejos do Natal andam cercados de muitas incertezas. O comércio apresenta apreensão com a situação econômica do país. As famílias voltam a ficar receosas com a persistência da pandemia, que embora controlada, segue preocupando. Para o fiel maduro, a alegria do Natal depende do grau da sua imersão no mistério da Encarnação.

Para o cristão consciente, a celebração do Nascimento de Jesus ultrapassa os limites do calendário. Celebrar o Natal não se resume a uma data do calendário, época de festas quando se vê quase obrigado a ser feliz com hora marcada. Celebrar o Natal, na dimensão cristã, é alegrar-se pelo salto de qualidade nas condições de vida que a entrada de Jesus provoca na história da humanidade. Jesus encarnou-se com a missão de ocupar novamente seu lugar cativo na alma humana e, desta forma, restaurar a dignidade de todo ser humano. No contexto da fé, a celebração do Natal é intrinsecamente jubilosa, não necessariamente ruidosa, nem obrigatoriamente marcada por comilanças e excessos etílicos.

Encarnando-se, o Filho de Deus e filho de Maria, entrou na história da humanidade com o declarado objetivo de resgatar a humanidade de sua desesperança, devolvendo-lhe sentido e alegria de viver. Sim, Jesus nasceu e permanece presente na história com a missão de curar a humanidade de suas várias enfermidades e libertá-la de suas, igualmente, variadas escravidões. Este resgate, todavia, não acontece automaticamente. O projeto de Deus torna-se realidade somente contando com a consciente colaboração do ser humano.

Esta verdade fica evidente já no momento da fecundação no ventre de Maria. Deus se fez depender do consentimento da jovem de Nazaré para iniciar o processo da Encarnação. Sem a consciente colaboração humana não há como levar avante o projeto da reabilitação do ser humano. Verdade, esta, que persiste. Pois Jesus nunca deixou de estar presente entre os seus. No entanto, sua voz nem sempre é ouvida, dado o constante ruído presente no mundo. Reside aqui a urgente tarefa que repousa na consciência do cristão fiel. Entende o crente que a voz de Jesus precisa ser ouvida, a redenção das pessoas e a consequente salvação do mundo dependem do grau de atenção dada a esta voz.

Emerge a urgente tarefa para o intuitivo fiel e consciente discípulo: fazer a voz de Jesus ouvida em um mundo que aparentemente pouco se interessa em lhe dar atenção, uma vez que se apresenta cheio de atrações, transbordante de possibilidades. Com todo esse glamour, contudo, a alma humana não consegue disfarçar a aridez do coração, a solidão do afeto, a angústia do vazio existencial! A razão é simples e profunda: há um espaço na alma humana que pertence exclusivamente a Deus! Enquanto o Eterno não recuperar seu espaço, enquanto sua voz não é ouvida, a alma humana permanece conturbada, desnorteada, árida. Não raramente estéril e fútil! Acontece que Deus não arromba portas. Recusa falar de forma estridente. Ele aguarda o sim, como esperou pelo consentimento de Maria.

Então, sem alarde, mas de forma incisiva, reocupa seu espaço. Fecunda suavemente. Reaviva o delicado brilho da esperança.

Indubitavelmente, feliz será o Natal na vida de quem permite que Jesus torne a ocupar seu espaço na alma. Feliz será, certamente, o Natal, na vida de quem se devota a dar atenção à suave voz do Mestre! Feliz será o Natal, sem sombra de dúvida, na vida de quem se apronta para viver o tempo litúrgico do Advento em compasso de gestação espiritual!

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