Padre Charles Borg: caridade política

Alternância de governos integra regimes democráticos! Em várias cidades, novos prefeitos assumem. Na totalidade dos municípios, as Câmaras Municipais passam por renovações de vereadores. Anseia-se, recorrentemente, por uma prática política renovada, difuso compromisso compartilhado e assumido em campanha! A oxigenação da política depende dos valores que regem as preferências dos agentes públicos. Valores sectários não renovam políticas, apenas mudam o foco. Emerge um aspecto que em momento algum deve ser minimizado. Embora eleitos por determinados grupos ou segmentos, a quem devem satisfação, os sufragados assumem um mandato comprometidos em zelar pelo conjunto da comunidade.

Na escala de valores a pautar a conduta do político, zelar por uma subsistência humana decente e integral é um valor inegociável, sob grave pena de apequenar e desvirtuar o mandato. Acima de interesses particulares prevalece o genuíno progresso da coletividade. A doutrina Social da Igreja Católica qualifica este valor como caridade política.

O termo ‘político’ está associado ao conjunto da sociedade. Por ofício, o político é chamado a zelar pelo bem da coletividade. Caridade política, portanto, foca o interesse genuíno pelo bem comum. É da sua natureza que quanto mais abrangente ou universal for esse empenho, mais legitima torna-se sua influência. Infere-se que este princípio de caridade política não atinge somente candidatos ‘religiosos’. Mesmo políticos arreligiosos devem assumir pautar sua atuação pelo superior bem coletivo. Deletérias são as consequências quando um administrador ou um legislador se deixa pautar exclusivamente por interesses sectários.

Injustiças graves são cometidas quando administradores ou legisladores privilegiam grupos particularizados. Governos nunca podem estar a serviço de grupos, famílias ou castas. Exigência ética, obrigatória a todo político, é servir o povo não servir-se do mandato! Para o agente público que se define como ‘religioso’, este exigência reveste-se ainda de caráter moral!

Nobre fica o exercício político quando a caridade que o inspira seja universal e inclusiva. Digno é o político quando os interesses que pautam sua agenda ultrapassam horizontes particulares. Nefasta, por óbvio, se torna a política quando manipulada e direcionada para servir interesses de grupos particulares ou de amigos. Administrar de forma transparente é imperativo ético e moral, obrigação do gestor, direito do cidadão! Bens públicos, em especial dinheiro público, existem para serem investidos no legitimo progresso da coletividade.

Avanço não há sem garantir condições dignas de vida, saúde e educação decentes para todos. Esses são programas a longo prazo, dificilmente concretizados satisfatoriamente durante pontuais mandatos. Salta outro grave vício incompatível com a caridade política: investir somente em obras que garantem visibilidade e colhem imediata aclamação. Não raramente, esse tipo de obra atende à agendas populistas. Básicas necessidades, como saneamento e infraestrutura educacional, costumam receber diminuta atenção e magro investimento, dado o pífio retorno eleitoreiro. Honra o mandato o político que, esquecido da projeção pessoal, se empenha na implantação de projetos que asseguram efetivo progresso para a coletividade.

Na mesma linha de conduta, digno é o administrador que dá continuidade à projetos benéficos iniciados por anteriores governos. É de bom senso não interromper obras de comprovada urgência, sinal de profundo respeito pelo dinheiro público. Lamentavelmente, vaidade e carreirismo corroem a política, corrompem políticos e depauperam municípios, estados e nações. Revestido de caridade política o agente público resiste contra a nefasta egolatria.

Urge enaltecer a política e valorizar os políticos. Incomensuráveis benefícios acompanham administrações probas, voltadas preferencialmente pelo bem coletivo. Repudia-se mesquinha politicagem! Revistam-se os eleitos de caridade política!

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