Padre Charles Borg: ser religioso por 24 horas

“No campo de jogo não tem essa de cristão”! A frase, veiculada em redes sociais, é atribuída a um conhecido jogador de futebol, famoso, coincidentemente, por seu estilo vigoroso de atuar. A assertiva, de resto, é passível de várias leituras. Ambíguas todas e preconceituosas, pois insinua que princípios cristãos ficam incompatíveis com disputas esportivas. Corrobora a afirmativa com a difusa e prejudicial mentalidade que defende a sumária exclusão de valores religiosos de algumas situações da vida.

Resultado de imagem para oraçãoPensamento este sutilmente infiltrado nos vários segmentos do convívio social: não há espaço para valores religiosos no comércio, na política, nas relações do trabalho, no esporte. Essas áreas possuem seus próprios e arreligiosos códigos. Valores cristãos valem somente em templos. Da igreja para fora, o que manda são os valores do mundo. É a mentalidade que consagra a duplicidade da moral. Como se o ser humano pudesse, sem prejuízo próprio e da coletividade, confinar valores em departamentos estanques. Quando a conveniência recomenda, usa-se o uniforme religioso.

Quando não, descarta-se o evangelho para adotar outro código de conduta! É a oficialização das caricaturas, a justificativa para usar máscaras conforme a necessidade! Absurdo total! Irracional alienação! Vertente lógica dessa mentalidade dicotômica defende tenazmente a restrição da ação religiosa à igreja – à sacristia, como se dizia antigamente. A Igreja não tem que se meter em assuntos que não lhe dizem respeito. A área dela é o espiritual. Do corpo material, a sociedade cuida com suas porosas legislações e hábitos convencionais. Como se o ser humano pudesse ser arbitrariamente dividido em áreas estanques.

Cada pessoa constitui uma unidade perfeita. Amadurece a medida que consegue razoável equilíbrio entre as diversas forças que nela operam: a biológica, a emocional, a psicológica e a espiritual. Essas energias não são excludentes nem em conflito entre si. Pelo contrário, embora cada uma tenha seu campo específico de atuação, colaboram em conjunto para um sustentável e harmonioso desenvolvimento. Ao se concentrar em uma das energias, em prejuízo das outras, o sujeito provoca um traumático desequilíbrio de personalidade. Ao ferir a interior harmonia, passa a manifestar frequentes reações de inquietação. Pois a satisfação de apenas uma parte das inerentes exigências de personalidade, não é suficiente para garantir plena realização. Analisa-se, a título de exemplo, o recorrente fracasso na vida afetiva de celebridades.

Em tese, teriam totais condições para viverem realizadas. Não o são porque alguma – ou várias – das exigências vitais ficou negligenciada. A realização pessoal depende fundamentalmente do prudente desenvolvimento da cada uma das energias vitais, seguindo, porém, uma ordem de preferências. Embora todas sejam necessárias, nem todas possuem a mesma ascendência. Ignorar esse básico quesito gera também interior desequilíbrio. Provoca comportamentais frustrações. Na ordem de preferências, a área espiritual sempre tem precedência.

A religião impõe valores que vão além do estritamente religioso. Abrangem o humano, em sua radical essência. Exaltam, assim, a honestidade. Promovem o respeito. Defendem a justiça. Purificam relacionamentos, em suma. A religião pura envolve o homem todo. E todo homem! Confere-lhe uma identidade impossível de ser descartada. A semelhança de uma segunda pele acompanha e pauta ações e reações! Nenhuma atividade escapa da sua influência sem prejuízo pessoal ou coletivo. Vinte e quatro horas por dia é-se religioso, qualquer que seja a ocupação!

*Padre Charles Borg é vigário-geral da Diocese de Araçatuba

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