Paixão, artigo do padre Charles Borg

Semana Santa outra vez! Para não poucas pessoas, as celebrações da Semana Santa não passam de um filme repetido. Imagino que alguns, como já participaram de muitas outras semanas santas, se consideram com um bom crédito perante Deus e assim se dispensam de participar das funções religiosas. Há ainda outros tantos para quem a Semana Santa não passa de um santo feriado que deve ser aproveitado para passear e descontrair-se!

As celebrações da Semana Santa são repetitivas para quem permanece na superfície do ritual. O cerimonial e o ritual, de fato, se repetem. Mas, quando se compenetra de seu profundo significado, revestem-se de dimensão transcendental, atual e interpeladora. Ao longo da Semana Santa faz-se memória da redenção da humanidade, ainda em andamento. A vida de Jesus, em especial suas derradeiras horas, encarna o profundo desejo de Deus de ver o ser humano redimido e liberto de suas inúmeras escravidões, e precipuamente de suas desesperanças, que o impedem de viver plenamente realizado! Apesar dos constantes e formidáveis progressos, em todos os campos da vida, o ser humano continua existencialmente desorientado e confuso, com medo e incerto, sem rumo definido e sem identidade assumida.

Ameaças de toda espécie, e imprevisíveis, acompanham sua existência. Estão aí a pandemia e a insensata guerra no leste europeu a confirmar. O que o mundo material propõe como caminho para a realização e oferece com garantia de felicidade fica muito aquém dos anseios da alma humana.

Com sua vida, em especial com sua morte na cruz e precipuamente com sua ressurreição, o Senhor Jesus Cristo responde a estes anseios. Ao pautar sua existência pelo incondicional serviço ao próximo e, no fim, entregar livremente sua vida, o Mestre Jesus proclama que o caminho para a realização, tanto no campo pessoal como coletivo, repousa numa existência pautada pela desinteressada caridade ao próximo. Quando o ser humano aprende a esquecer-se de si em favor do semelhante começa a trilhar o caminho da realização e, de forma sutil e vigorosa, colabora no processo de superação da corrupção e da libertação de futilidades que prevalecem no mundo material. Pois o mundo sem Deus insiste que o ser humano se realiza ao saber cuidar de si, qualquer que seja o custo.

Esta mentalidade egocêntrica apressa previsivelmente a desintegração da sociedade, azeda os relacionamentos humanos e provoca invariavelmente desigualdades, injustiças e misérias. Objeta-se com frequência que quem vive a fraternidade não progride numa sociedade competitiva. É pouco valorizado, quando não, ridicularizado. Emerge a contundente lição que sobressai da experiência de Jesus, direcionada particularmente aos que hesitam. O fim da vida de Jesus não foi a cruz. O dia mais santo não é a Sexta-feira da Paixão! Ele ressuscitou! O dia mais bem-aventurado é o Domingo de Páscoa! Ao ressurgir vitorioso sobre a prepotência e a arrogância, Jesus proclama a supremacia do bem sobre o mal, do amor sobre o egoísmo, da consideração pelo semelhante sobre a cruel indiferença e o frio olhar de longe! Genuinamente exitosos são todos aqueles que, corajosa e humildemente, abraçam a mesma causa de Cristo, aceitam segui-lo carregando diariamente sua cruz. Uma realização que ultrapassa o pessoal e se estende naturalmente para o coletivo.

O ser humano persiste na ilusão da vida fácil, do sucesso sem sacrifício, da realização sem renúncia. Foge da cruz! Ao participar e celebrar, com consciência, da Semana Santa, o fiel glorifica a Deus pela esperança que a encarnação de Jesus e seu exemplo de vida trouxeram para a humanidade. Renova, ato contínuo, o compromisso de caminhar com Ele, de abraçar com ele e como ele a cruz não porque gosta de sofrer, mas porque crê firmemente que a legitima celebridade se alcança quando se aprende a esquecer-se de si em favor do outro, quando se aprende, em suma, a viver a caridade sem medos e sem limites! O mistério da Paixão de Cristo continua!

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