Pausa, artigo do padre Charles Borg

A Missa do Galo está praticamente extinta! Lamentavelmente, a singela e marcadamente simbólica liturgia do Natal está sendo substituída por uma dúbia necessidade de realizar a ceia em família. Natal é festa da família, alega-se, e a reunião familiar merece precedência mesmo diante de tradições religiosas. De mais a mais, há outros horários de missa! A questão é de precedência. E precedência segue valores! Para alguns, a Missa do galo não passa de nostalgia sentimental. O motivo real para sua introdução no calendário litúrgico, todavia, é altamente significativo.

O horário de meia-noite representa simbolicamente, a hora mais escura do dia. Justo nesta hora de maior incerteza e medo celebra-se o nascimento do Filho de Deus feito homem. “O povo que caminhava na escuridão, viu uma grande luz”! Assim como a primeira obra da criação foi a luz, na obra da restauração da humanidade e do mundo, a Luz verdadeira brilha para iluminar o mundo, dissipar as trevas, banir de vez o medo da história. E restaurar a ordem. A Missa do Galo em sua dimensão simbólica e festiva evoca a recuperação da esperança sobre as incertezas, anuncia a supremacia da luz sobre as sombras, proclama a vitória do amor sobre a indiferença. Reforça, ademais, a necessidade de se estar sempre vigilante, pois em hora em que menos se espera, o Senhor vem!

As narrativas que envolvem o nascimento do Menino Deus descrevem a reação de pessoas pegas de surpresas pela iniciativa divina. A Encarnação do Filho do Altíssimo representa a formidável surpresa que Deus reservou para mexer com a humanidade! Maria e José são sacudidos em sua pacata e humilde jornada pelo anúncio da concepção do Filho de Deus! Justo imaginar quantas perguntas, quantos questionamentos! Apesar dos receios e timores, o casal não estaciona. Se move, cumpre com as obrigações.

Surpreendidos também foram os pastores, acordados no meio da noite com o inesperado anúncio: nasceu um salvador, e vocês são os primeiros convidados a ir conhece-lo, orientados por um inusitado sinal: encontrarão um menino deitado em manjedoura! Perplexos certamente e compreensivelmente desconfiados, os pastores reagem. Levantam-se e se dirigem ao lugar indicado. Surpresos igualmente ficam astrólogos que reconhecem a aparição de nova estrela, que anuncia, segundo suas convicções, o nascimento de um príncipe real, em região ignorada e para um povo desconhecido. O príncipe recém-nascido não integrava os povos a quem pertenciam, poderiam simplesmente ignorá-lo. No entanto, decidem se deslocar e viajar apreensivos na direção do desconhecido. Maria e José, os pastores e os reis magos reagem positivamente diante da surpreendente manifestação de Deus em suas vidas e são abençoados com a feliz experiência do encontro com o Menino-Deus! Emerge espontânea a redentora mensagem embutida no mistério da Encarnação: as pessoas que se deixam surpreender pela visita divina, veem o rosto de Deus. A experiência muda suas vidas. E eles, por sua vez e de forma espontânea, mudam a vida de muita outra gente!
Desponta a mística da celebração do nascimento do Menino Deus.

Em meio a tantas sombras que perpetuamente ameaçam a vida, tanto de indivíduos como de nações, reacende-se a luz, reajusta-se a vista, reavive-se a esperança, respira-se a alegria! Quer melhor hora que meia-noite para experimentar simbolicamente a mística desta venturosa passagem! É o papel de presente que destaca o donativo! Cogite, à meia-noite, introduzir uma pausa no descontraído clima da ceia, apague as luzes artificias, e, reúna os convidados em volta da imagem Menino Jesus, motivando-os a acenderem velas e acolherem o Deus da Luz, que brilha e dissipa as trevas! Pausa mística! Afinal, pausa também integra a partitura!

FELIZ NATAL!

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