Quietude, temática de artigo do padre Charles Borg

Os 4 elementos do deserto como símbolo espiritual

O distanciamento social gera um vácuo existencial. O melancólico clima imposto pelas restrições necessárias para impedir o alastramento do contágio do Covid-19 afeta, comprovadamente, a saúde emocional e psíquica. Perde-se apetite para tudo: estudar, rezar, assistir filme, conversar. Em questão de comida e bebida, a compulsão está mais para fuga, uma prova a mais do vácuo existencial! Motivações não faltam, vão além do isolamento obrigatório.

O noticiário demasiadamente negativo, a informação sobre o avanço de número de infectados e de óbitos, o relato de sofrimento por parte de vitimas, a insistência sobre evitar agrupamentos, a abstinência religiosa … O rol de cargas negativas é nauseante e desgastante. Compreensível que o clima tenso se agrava, com previsíveis desdobramentos tumultuados nos relacionamentos entre variadas situações de convívio. Estatísticas dão conta de aumento de irritação e nervosismo, descambando não raramente para agressões violentas, particularmente contra mulheres e crianças.

O visível aumento de tédio multiplicou consideravelmente a procura por assistência profissional contra depressão e ansiedade. Mesmo a estimulada escola domiciliar encontra-se em cheque, pois tanto pais como filhos questionam o efetivo aproveitamento da experiência. Ilustrativo é o lamento de alguns pais, descontentes com seu próprio desempenho no papel de professores ao ouvirem os filhos taxando-os de ‘muito bravos’. Sempre difícil é separar papeis, pais agem como pais, qualquer que seja a circunstância!

A provável extensão do período de distanciamento social tende a intensificar o grau de frustração. O futuro próximo permanece pouco animador. Muitas são as perguntas, poucas as respostas confiáveis. Enquanto não houver a tal redentora vacina, o bom senso continua recomendando a fundamental exigência de evitar aglomerações. Apresenta-se mais agudo o desafio de manter-se proveitosamente ocupado, com tanto tempo ‘ocioso’ disponível. A perspectiva do silêncio prolongado assusta, a percepção do vazio arrepia. Diminui sensivelmente a capacidade de concentração, abrindo espaços para distrações fúteis e devaneios alienantes!

Salta, neste desanimador contexto, um singular exercício de considerável proveito individual, com óbvios desdobramentos coletivos. Ilustrativo lembrar preciosa lição encontrada na Bíblia: silêncio e retiro são as circunstâncias preferidas por Deus para se fazer presente na vida das pessoas. Inúmeros são os relatos dessa venturosa experiência. Moisés permaneceu isolado antes de receber os Dez Mandamentos. O profeta Elias, viveu alentadora experiência mística na passagem da brisa suave no Monte Horeb. Jesus retirava-se frequentemente a lugares ermos para poder estar a sós com seu Pai celeste! Experiência tão marcante, a ponto de os discípulos solicitarem um tutorial de oração!

Interessante logística usada por bombeiros para impedir o alastramento de incêndios florestais é a chamada ‘linha do fogo’. Ateia-se fogo numa linha na direção do caminho das chamas, de modo que, ao alcançar o traçado, o fogo não encontra elementos para queimar e ‘morre’. Combate-se o fogo com fogo! No presente contexto cauteloso, emerge a proposta de aproveitar o silêncio para alimentar a alma com a presença divina: leitura meditada da Palavra, conversa amiga com o Papai do céu! O árido silêncio se transforma em oásis refrescante, ocasião privilegiada para deixar-se encontrar por Deus! Sua presença preenche o vácuo existencial. Devolve sentido para a existência. Resgata a autoestima. Restaura, acima de tudo, a dimensão ativa nas contingências cotidianas. Mesmo resguardado, é possível ser produtivo e útil! Quietude, a genial terapia contra um silêncio enervante!

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