Dom e compromisso: padre Charles Borg destaca a Campanha da Fraternidade

“E Deus viu que tudo era muito bom”! A frase sintetiza com perfeição a proposta de Deus para o Universo, em especial para o ser humano. Na visão bíblica o ser humano existe porque Deus quer que o Homem partilhe e participe da glória divina. A vida, em especial do ser humano, é uma exímia expressão do profundo e envolvente carinho que Deus nutre por ele. Um verdadeiro presente. Na condição de ser um dom exímio, nasce espontânea a responsabilidade de cuidar e promover essa preciosa dádiva. Este é o tema da Campanha da Fraternidade deste ano: olhar a vida com dom de Deus e sentir-se chamado a comprometer-se não somente com sua preservação, mas também, e principalmente, com o seu cultivo.

Vivendo em harmonia plena e cultivando profundo respeito pela natureza, o ser humano experimenta a perfeita realização. Um olhar, mesmo superficial, sobre a realidade atual, registra, com pesar, as violentas e muitas vezes gratuitas agressões contra esse belo presente divino. Essas agressões atingem de forma cruel o ser humano. É alastrado e grave o sofrimento injusto padecido por milhões de semelhantes. Mais cruel ainda é a difusa indiferença que se instala. Fala-se, hoje, com doída precisão, da globalização da indiferença.

Tanto por serem numerosas as humilhações que mancham a dignidade humana, como também pelo crescente egocentrismo que caracteriza a cultura atual, o ser humano está ficando anestesiado contra as desumanas situações que prostram milhões de seres humanos. Com o objetivo de despertar uma consciência verdadeiramente evangélica diante das tristes situações de miséria e de descaso a que são sujeitas um sem número de pessoas, a Campanha da Fraternidade propõe debruçar-se sobre a conhecida parábola do bom samaritano.

Ao responder a uma provocação de um entendido nas Escrituras acerca de quem pode ser considerado e tratado como próximo, Jesus apresenta a sagaz e pedagógica parábola que tem como protagonista um cidadão samaritano – no conceito judeu um desertor da fé, desprezível herege. Ao passar por um rapaz assaltado e ferido, ao contrário de outros dois judeus devotos que viram a vitima, mas a preferiram ignorar, mudando até de caminho, esse samaritano não somente enxerga o assaltado, como também dele se aproxima, oferece-lhe os primeiros socorros, arranja-lhe hospedagem e encaminha tudo para assegurar o seu total restabelecimento. O pagão samaritano ultrapassa fronteiras, estabelece novo paradigma de compaixão.

Pouco se incomoda se o assaltado é judeu rival. Enxerga apenas um ser humano agredido, motivo suficiente para agir com compaixão. Uma vida pedia socorro! Gestos humanitários impactam mais profundo que atitudes desumanas! Em sua condição de criatura divina, o ser humano, como também a natureza, merecem nossa reverência e cuidado. Lembra o texto base que orienta a reflexão sobre o tema, que na Semana Santa a comunidade cristã avista duas bacias. Uma serve à autoridade local para lavar as mãos, consentindo com a morte de um inocente.

A outra é usada pelo Filho de Deus para purificar os sujos pés de seus discípulos, e assim ensinar que a verdadeira reverência se expressa no serviço desinteressado. Qual das duas bacias melhor ilustra que a vida é dom que gera compromissos? Vai, faça o mesmo, recomenda Jesus!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

X