Padre Charles Borg aborda os ensinamentos catequéticos do filme A Missão

A sequência é dramática! Envolvente! O capitão Rodrigo Mendonza, inescrupuloso mercador de escravos, fratricida e homicida, arrepende-se de seus erros e aceita o chamado à conversão. Junta seus pertences e se integra à comunidade de padres jesuítas, missionários entre indígenas às margens do rio Iguaçu. Carregado de espadas e armaduras, apego evidente a um comportamento violento e cruel, segue os missionários na subida da íngreme encosta. O destino é uma aldeia indígena onde os missionários catequizam os nativos. O fardo, pesado e desajeitado, impede ao capitão acompanhar o passo dos religiosos. A força da água das cataratas bate inclemente na cara, encharca a roupa e torna a escalada escorregadia, arriscada.

Desequilibrado, o capitão quase cai, se não fosse salvo pelo padre Gabriel, irretocável participação de Jeremy Irons. Valente e determinado, o penitente persiste. Ao alcançar o topo da encosta, exausto pela fadiga e vergado pelo peso das armas sanguinárias do bárbaro passado, é reconhecido pelos índios. Um guerreiro corre e ameaça cortar lhe o pescoço. O cacique, todavia, intervém e ordena ao índio cortar a corda da trocha, livrando o visitante do incômodo e imundo fardo. Armas e armaduras, despencam rio abaixo e o capitão, exausto, mas finalmente livre e perdoado do seu sanguinário passado, desaba a chorar. Esta emblemática sequência distingue o filme A MISSÃO, dirigido por Roland Joffe. Robert de Niro vive, magistralmente, o personagem do capitão Rodrigo. Dizia-se, na época, que ele brigou pelo papel!

A sequência é, sem dúvida, uma das mais belas e densas catequeses cinematográficas a representar o caminho de conversão. Pecado, perdão, redenção! Enquanto se persiste ligado ao passado, o caminho da conversão permanece árduo, escorregadio. Somente largando definitivamente o passado, deixando a água levar e lavar, é que se experimenta a alegria da conversão, a libertação almejada. Complementa o processo da cura da alma, a experiência e a convicção da gratuidade do perdão.

A soberba e a arrogância se vencem pela generosidade da misericórdia! A catequética sequencial é enriquecida pela primorosa trilha sonora, composta por Ennio Morricone. O discurso musical expõe e acompanha a luta interna do personagem e induz o espectador a se envolver em sua saga. Começa evocando a célebre melodia – o tema de Gabriel – que, no filme, abre a porta da evangelização junto aos indígenas. Introduz, então, as cordas, evoluindo do grave ao suave ate chegar às madeiras, desembocando nos vigorosos sopros, reservando à percussão a vibração dramática. Emerge, então, o coral, adicionando intensidade e emoção à peça até alcançar o exuberante final! Sem esquecer a sutil, mas marcante presença dos atabaques, a dar tempero tropical à magnífica trilha sonora. Morricone oferece ao público sua leitura musical do divino perdão e da redentora misericórdia. Extasiante capolavoro!

Críticos e amantes do cinema lamentam a minguada aclamação da película. Comenta-se, inclusive, que a culpa reside, paradoxalmente, na primorosa partitura de Morricone. A peça se autossustenta, razão porque encontra-se incluída em várias concertos eruditos. O maestro italiano presenteou ao mundo outras inesquecíveis composições. Quem não se emociona com a partitura do filme CINEMA PARADISO!

Quem não se rende diante do lirismo do tema de Deborah em ONCE UPON A TIME IN AMERICA, para mencionar apenas mais duas aclamadas composições! Curioso, o único Oscar que Morricone ganhou foi como reconhecimento pelo conjunto da sua obra musical! Escreveu um admirador norte-americano no dia do falecimento do compositor: em tempo de mortes causadas por um terrível vírus, que, manipulado por interesseiros políticos, anda provocando luto em famílias, conflitos entre irmãos e confusão mental por conta de deliberadas mentiras, possam as composições do mestre italiano devolver equilíbrio a mentes desorientadas e serenidade a alma aflitas! Sua música, mais do que nunca, inspira e acalma! Grazie, maestro!

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