Padre Charles Borg: Mãe e mestra

Políticos na fila de comunhão! Acontece, atualmente nos Estados Unidos, acirrada discussão envolvendo o acesso de políticos que se manifestam a favor do aborto à comunhão eucarística. A decisão da Conferência episcopal norte-americana determina que políticos pro-aborto devem abster-se da comunhão eucarística.

A orientação pastoral está gerando calorosos debates. Muitos católicos, clérigos e leigos, consideram a decisão equivocada. Argumentam que o político jura fidelidade à Constituição. E uma emenda constitucional do país permite a prática do aborto. Ademais, por que destacar somente o aborto como referência quando diversas emendas na Constituição norte-americana legalizam outras iniciativas em favor da morte, como por exemplo, a pena de morte e a livre comercialização de armas de fogo, causa, esta, de inúmeras e chocantes chacinas? Alegam fiéis outros que com a decisão a Conferência acaba desmotivando católicos a entrar na política. E introduzem um dilema moral desnecessário, ter o político católico que escolher entre a doutrina da Igreja e a Constituição.

O debate é particularmente saudável, embora delicado e controverso. A temática extrapola o território estadunidense e abrange a atuação de políticos católicos ao redor do mundo. O magistério da Igreja, pela voz de vários pontífices, insiste na participação de leigos católicos na atividade política. A atuação do político cristão consciente melhora potencialmente legislações, contribuindo para que a justiça social se firme. Respeitando o saudável princípio laico que marca as constituições e os regimes políticos de vários países, o político cristão propõe valores evangélicos e os defende partindo da convicção que os preceitos cristãos são intrinsecamente benéficos para a humanidade, independente do credo professado.

O estado é laico, mas o político tem direito de não ser. Pautar a conduta parlamentar e administrativa segundo princípios evangélicos é postulado de coerência. Na peleja política, contudo, não se considera estratégia ideal atrelar a defesa desses valores a credos confessionais. Não se é político porque é católico! Tampouco salutar é identificar credo com partido político. É justamente neste campo que se insere a atuação da hierarquia, e dos teólogos, ao contribuir na formação de uma consciência madura a orientar o político em suas deliberações. Sobre o agente político recai a delicada tarefa de equilibrar-se entre as orientações morais e dogmáticas que professa e os postulados do partido político ao qual é afilhado.

Em última instância, o agente político, como, de resto, qualquer ser humano, é responsável por suas escolhas e atitudes perante Deus. Cabe ao sujeito, devidamente formado, avaliar a autenticidade de sua adesão religiosa e, como consequência, considerar se está ou não em condições de participar integralmente da liturgia eucarística. É de se levar em conta ainda outro agravante; sendo o político um agente público, suas escolhas carregam desdobramentos coletivos.

Com feliz precisão a Igreja se define com mãe e mestra. Na condição de mestra, empenha-se em formar seus afilhados com claros princípios a serem seguidos e transcendentes verdades a serem abraçadas. Na condição de mãe, desdobra-se para manter constantemente os afilhados no seu radar, decidida a não vê-los perder-se. Dialogar mais evangélico é que anatematizar!

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