Somos um, por padre Charles Borg

Mau é o tempo presente”! Com este desabafo, o apóstolo Paulo sintetiza a situação da comunidade cristã que habitava a região da Galácia. Rachada se encontrava a comunidade por conta de intensa disputa teológico/cultural. A comunidade era composta por um núcleo de seguidores oriundos do judaísmo tradicional e outro formado por pessoas vindas do paganismo, convertidos ao cristianismo. Entre os judeu-cristãos, um grupo mais tradicional exigia que os convertidos ao cristianismo, vindos das culturas pagãs, se submetessem às obrigações das leis e tradições judaicas. Entre os mais destacados costumes figurava a “circuncisão”, o sinal na carne que distinguia o povo de Deus!

Tão intensa era a disputa que cristãos vindos do judaísmo tradicional recusavam-se participar do ritual da Eucaristia com os irmãos convertidos do paganismo, para não se contaminarem! Segundo os tradicionalistas, os pagãos não purificados pelos rituais legais contaminavam a celebração da partilha do pão. Disputa ideológica nada leviana.

O apóstolo Paulo abraçou o desafio de encaminhar o problema. Argumentava a seu favor ser ele também descendente de um judaísmo tradicional, tão inserido na cultura da lei a ponto de considerar os cristãos seita a ser exterminada. Justamente quando imaginava estar cumprindo este dever sagrado, deu-se uma radical reviravolta em sua vida. Ele mesmo descreve o encontro extraordinário que teve com Jesus Cristo ao estar por ingressar a cidade de Damasco.

A partir desse encontro e das instruções recebidas por Ananias, o ancião responsável pela comunidade cristã da cidade, o entendimento de Paulo muda por completo. Amparado nos textos proféticos que anunciavam o futuro Messias, passa a entender que a salvação não repousa mais na observação das tradições, mas, sim, na fé em Jesus Cristo. A fiel adesão a Jesus Cristo elimina anteriores diferenças entre circuncisos e incircuncisos, pelo simples e fundamental fato que a fé não é a ligada a valores culturais e étnicos, mas nasce unicamente da graça divina.

Ao defender com fervor sua posição teológica, Paulo demonstra que a fé, quando verdadeira, opera rupturas e provoca avanços. Rupturas com doutrinas incompatíveis com seus postulados e introdução de valores que são, simplesmente, consequências naturais da sua presença. A fé em Jesus Cristo, quando autêntica, muda as referências básicas de opções e costumes e opera qualitativo salto no quesito relacionamentos. A fé induz naturalmente ao seguimento de Jesus Cristo. E seguir Jesus Cristo representa aprender a amar de maneira sempre inclusiva! Formidavelmente, Paulo resume esta transformação ao escrever enfaticamente, que a comunhão em Cristo elimina todas as diferenças. Não cabem mais divisões nem de gênero, nem de etnia, nem de idade. A fé em Cristo eleva a todos á condição de irmãos! Todos, irmãos e irmãs, são um em Cristo Jesus! Sublime realidade!

A leitura aplicada da Carta aos Gálatas – proposta para animar o mês da Bíblia para este ano – apresenta-se como oportuníssimo exercício na realidade que vive-se atualmente no país. A população anda rachada por divergências variadas, em especial no campo político. Exacerbada está a polarização a ponto de dificultar diálogos consistentes e retardar debates construtivos. Repara-se, contudo, com um denominador com imensa capacidade para resgatar o convívio civilizado e ordenar proveitosamente o debate ideológico; a fé em Jesus Cristo. Curiosamente, antagônicos adeptos professam crer em Jesus Cristo e se propõem defender a religião! Ora, se é verdade que Cristo vive em pessoas de fé, natural contar com a clara manifestação da sua presença. Fé viva é fé fecunda. É hora de banir a insensatez do “mau presente”!

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