Superação, por padre Charles Borg

 

O deus Janus possui duas cabeças. Na mitologia romana, a divindade Janus é representada com uma face olhando para trás e a outra para frente. Era reverenciada como a divindade que orienta e tutela tudo o que começa. A simbologia da divindade, simples e eloquente, evoca a dinâmica da vida. Nada começa bem sem avaliar experiências passadas. Só consegue ir para frente de maneira progressiva quem se aproveita das lições do passado. Por inspirar novos avanços, o deus Janus deu origem ao nome do primeiro mês do ano: Janeiro, portador de alvissareiras esperanças.

A representação mitológica da divindade etrusca, com suas duas faces, tem muito a sugerir no começo deste novo ano. É bem verdade que, segundo alguns argutos observadores, o ano vai realmente começar com a aplicação maciça da vacina. Até lá tudo continuará velho, carregado de receios e incertezas. Independente do calendário, real ou imaginário, fará bem inspirar-se na mitologia romana, caso se queira, objetivamente, que o ano seja novo!

Ao analisar o ano 2020, a face retro foca acontecimentos que alteraram o compasso do mundo inteiro. Chama atenção, evidente, o surgimento e o rápido contágio da pandemia, com os medos que provocou, as mortes que enlutaram milhares de famílias, a adoção do social distanciamento, a imposição sanitária da clausura doméstica.

A autoestima da humanidade sofreu considerável abalo. As pessoas tomaram consciência que, mesmo amparadas por um formidável arsenal tecnológico, continuam dramaticamente vulneráveis. Um invisível vírus alterou todo tipo de agenda! Ignorou contas bancárias, contaminou indistintamente gêneros e classes sociais. Desrespeitou idades. Altiva e presunçosa a humanidade tremeu. Em situações difíceis, todavia, a inteligência humana sempre encontra possibilidades novas! A face retro enxerga também como a comum aflição gerou estupendas iniciativas de cooperação e solidariedade.

Solidificou-se a consciência que, apesar das infames diferenças, a humanidade é uma família. Cura e alívio só seriam possíveis se forem universais e inclusivas. A inicial perplexidade com a calamitosa situação cedeu lugar à criativas e eloquentes experiências de adaptação e compartilhamento. Ironicamente, essas experiências escancaram as indecentes, e habilmente disfarçadas, desigualdades que marcam a comunidade humana. Impõe-se a convicção, caso não fossem eliminados os desumanos fossos de miséria e de abandono, que reduzida ficará a eficácia de vacinas e possíveis remédios preventivos.

Urge superar o cinismo ético. Urge superar barreiras ideológicas, classistas, xenofóbicas. Cientistas e agentes sanitários proporcionam edificante exemplo de eficácia oriunda de experiências compartilhadas. Não há obstáculo que resiste à inteligência humana quando se dispõe a trabalhar de forma partilhada.

Inadmissíveis, portanto, a discriminação racial e a violência de gênero que marcaram de maneira igualmente trágica o ano 2020. A face retro registra como negros foram covardemente assassinados e mulheres vergonhosamente abusadas, agredidas e assassinadas. Capta, igualmente, como a injustificada e absurda violência despertou consciências e alastrou pelo mundo ondas de indignação contra abusos de autoridades e de anacrônico machismo. Ecoou forte clamor em favor da vida. Vidas negras importam! Vidas de mulheres igualmente importam. Urge educar-se no respeito às diferenças. Urge educar-se na tolerância!

Janeiro, como o deus Janus, inspira recomeços. A face retro foca a formidável resiliência da humanidade. O olhar frontal vislumbra que com engenhosidade, ousadia, respeito e universal cooperação, 2021 será o ano da superação!

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