Padre Charles Borg: ideal Eucarístico

Em clima de Páscoa aconteceu a primeira eucaristia. Detalhe este que emoldura o rito e contribui decisivamente na compreensão do sublime mistério. Urge lembrar que, em contexto judeu, a celebração pascal é eminentemente coletiva, preferencialmente familiar. A família, ou grupo de famílias, se reúne, e em clima festivo, recorda a libertação da escravidão e se compromete em perpetuar a liberdade para as gerações futuras. A ceia pascal induz olhar para frente! Inserindo intencionalmente a celebração da primeira eucaristia no contexto pascal, o Senhor Jesus Cristo insinua configurar como primordiais valores da nova ceia a dimensão comunitária e o viés missionário.

É na condição de família de Deus que se celebra a Eucaristia. As primitivas comunidades captaram a dimensão comunitária da celebração eucarística e faziam questão, como atestam as cartas do apóstolo Paulo, de a realizar em ambiente familiar. Clima familiar é tempero indispensável para uma celebração coerente e frutuosa da eucaristia. Ao analisar a evolução da celebração eucarística repara-se que a dimensão coletiva foi gradativamente sendo substituída por uma mística individualista. O contexto ceia, com seu ambiente de espontânea confraternização foi, gradualmente, substituído por uma espiritualidade individualista, sóbria e introspectiva. A catequese eucarística insistia quase exclusivamente sobre a dimensão pessoal na celebração.

Nada estranho que o enfoque passou a ser o ato de comungar, reduzindo-o a um encontro precipuamente pessoal com o Senhor Jesus, desassociando-o, sutilmente, do contexto marcadamente coletivo da celebração. Insistia-se sobre a necessidade de recolher-se após a comunhão em íntimo e privativo diálogo com Jesus, ignorando por completo os demais comensais que, igualmente, comungam o mesmo e único Corpo de Cristo! Estranha refeição esta, onde os participantes se aproximam da mesma mesa, partilham o mesmo alimento distribuído pelo único Senhor e, ato contínuo, desconsideram os demais privilegiados amigos do anfitrião mor. Além da incongruência, uma vez que todo o ritual eucarístico é coletivo, a atitude de recolher-se após a refeição para conversar intima e privadamente com Jesus, representa falta de educação com os demais irmãos, francamente em oposição à hábitos civilizados e em direto confronto com o original clima da ceia pascal.

A insistência em limitar a espiritualidade eucarística ao âmbito pessoal, subtrai dela outro aspecto fundamental, sua dimensão missionária. Na visão intimista, a espiritualidade eucarística favorece atitude estática e pontual. Tanto a mística da ceia pascal judaica e, de forma mais enfática, no horizonte novo implantado por Jesus Cristo, a celebração da Eucaristia, e consequentemente a comunhão sacramental, envolve essencialmente a dimensão missionária. Ao insistir que a celebração eucarística fosse realizada em sua memória, isto é, como memorial da sua vida e missão, Jesus Cristo insta os discípulos de todos os tempos a comungarem seu fundamental proposito de garantir vida plena para todos.

Afinal, Cristo encarnou-se, viveu, morreu e ressuscitou para redimir o mundo. Ao partilhar o pão “dado por vós” e o cálice “do meu sangue derramado por vós e por todos para a remissão dos pecados” o fiel comunga Jesus Cristo integral, sua vida e missão. Ao apresentar-se para ser alimentado com o “Pão repartido” o fiel exprime a disposição de ser ele também “pão doado para a vida do mundo”. É ambíguo reduzir a comunhão eucarística ao conceito intimista de receber Jesus no coração.

O conceito que se faz da Eucaristia molda e alimenta a espiritualidade dos indivíduos e das comunidades. Urge comungar o ideal eucarístico de Jesus. Urge alcançar em cada celebração eucarística a perfeição da unidade e a revitalização do viés missionário!

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