“O que acontece na Igreja?” Artigo do padre Charles Borg sobre a recente excomunhão de sacerdotes

“O que acontece na Igreja?” É a pergunta que muita gente, aflita, anda fazendo. Quer saber o que realmente está acontecendo, e porque, após a divulgação da excomunhão de bispos e padres e a notificação da situação do cisma na Igreja Católica. Interessa apresentar oportuno e breve resumo histórico.
Em meados do século passado, realizou-se na Igreja Católica, o segundo Concilio do Vaticano. Nesta reunião que durou quatro anos, sob a orientação de dois Papas – João XXIII e Paulo VI – bispos do mundo inteiro debateram sobre rumos que a Igreja deveria adotar em um mundo de rápidas e profundas transformações. Desses debates saíram vários documentos indicando ajustes e motivando abordagens com vistas a tornar a atividade pastoral da Igreja mais adaptada ao compasso do mundo moderno.
Nenhuma verdade da fé dogmática ou moral, recebida dos apóstolos, foi suprimida ou alterada. Os padres conciliares, com a aprovação do Papa Paulo VI, indicaram reformas com potencial de habilitar a Igreja a estabelecer fecundo intercâmbio e sustentar dialogo consistente com o mundo moderno. Entre essas orientações, chamam atenção novos e colegiais conceitos de governo na Igreja, a aproximação fraterna e respeitosa a outros credos, a disposição de dialogar com o mundo laico.
A inovação mais impactante, todavia, foi a reforma litúrgica que introduziu o vernáculo nas celebrações, simplificou as rubricas, colocou mais em evidência a proclamação da Palavra de Deus, impôs a substituição do altar tridentino pelo altar em formato de mesa, tudo com o objetivo de facilitar grandemente a efetiva e proveitosa participação dos fiéis nas celebrações religiosas.
Poucos anos após o término do Concílio Vaticano II, um bispo francês, Marcel Lefebvre, que havia participado do Concílio e dado seu consentimento a todos os documentos conciliares, mudou de ideia e passou a se posicionar contrário às reformas, por julgá-las erradas e contraditórias à tradicional fé católica. Dirigiu duras críticas especialmente contrárias à reforma litúrgica. No conceito do bispo, a abolição do latim e o redesenho do altar reduziram significativamente a dimensão sagrada do mistério e aproximou perigosamente a liturgia católica à reforma protestante. Decidiu, então, formar uma comunidade de padres que comungassem o mesmo pensamento conservador. Origina-se a Fraternidade Sacerdotal São Pio X – FSSPX.
Nos anos seguintes, a dissidência tornou-se mais aguda. O número de simpatizantes foi aumentando, a ponto do bispo francês já idoso e debilitado, querendo assegurar a continuidade do movimento dissidente, decide consagrar bispos e padres sem a autorização do Papa. Diante da postura rebelde e desafiadora, o Papa João Paulo II excomungou o bispo Lefebvre e os bispos por ele consagrados.
O Vaticano, todavia, nunca fechou a porta ao diálogo. Reconheceu a legitimidade de pessoas preferirem a liturgia tradicional, concedeu a possibilidade de realizar tais celebrações, sempre sob a orientação do bispo local, desde que se reconhecesse e se submetesse à autoridade do Papa. Com isso, o Papa Bento XVI tirou a excomunhão e reintegrou a comunidade são Pio X à comunhão eclesiástica.
Dos bispos ordenados por Lefebvre, todavia, sobraram apenas dois, o que fez novamente levantar a apreensão com a continuidade da fraternidade. Desta forma, no começo de julho deste ano, mesmo diante de insistentes apelos e advertências do Vaticano, a fraternidade decidiu, a revelia, ordenar novos bispos, assumindo declarada posição de confronto e dissidência. O Papa Leão XIV declarou a fraternidade fora da comunhão católica, excomungando bispos, clero e fiéis que confessassem o credo da fraternidade.
A porta do diálogo permanece aberta, insiste o Papa. O cisma é doída ferida. Desnecessária.  A Igreja Católica permanece de braços abertos para acolher os dissidentes … Desde que aceitassem o abraço! Na tenda que é a Igreja, só não cabe quem recusa nela abrigar-se!
P.S. Já existe uma dissidência do FSSPX conhecida como Transalpine Redemptorists, com sede na ilha Papa Stronsay, no extremo Norte da Escócia. Esta fraternidade ultraconservadora planeja consagrar seu bispo, o neozelandês Pe. Michael Mary, fundador da fraternidade, no próximo dia 25 de julho, na sede da fraternidade na Escócia.

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