Telhado. Artigo do padre Charles Borg
Minhas algemas, meu púlpito! Esta intuição libertou um conhecido bispo asiático do desespero quando, capturado e algemado, junto com centenas de outros prisioneiros, se viu conduzido para um campo de concentração. Confessa o prelado que seu inexplicável arresto deixou-o totalmente confuso. Aflito e em pânico, pensava no rebanho a ele confiado e na falta que um bispo faz a um povo dominado por regime ateu e comunista.
À medida que a viagem progredisse, e os prisioneiros foram se familiarizando, muitos dos companheiros detentos, mesmo entre os non-católicos, foram reconhecendo a figura do bispo e a ele recorriam pedindo oração, consolo, orientação. Nesta situação caótica e dolorosa emergiu no prelado a libertadora intuição que, naquela peculiar circunstância, sua cátedra era o comboio dos prisioneiros. E futuramente, sua messe seria a cadeia, apesar de todo ambiente opressor e degradante, entre os companheiros detentos e mesmo para os guardas. A intuição emergiu como pastoral libertação da oprimente angústia e passou a alimentar novamente a chama do ministério. O discípulo de Jesus Cristo deve estar atento a exercer seu múnus profético não somente onde imagina, mas especialmente, onde Deus o coloca. Afinal de contas, é no pessoal contato com o outro que, preferencialmente, se evangeliza.
A intuição do bispo asiático reveste-se de especial dimensão no atual contexto midiático e informatizado. O fantástico avanço tecnológico permite, atualmente, que pessoas se conectem virtualmente sem fronteiras, tanto de distância quanto de tempo. A facilidade de desempenhar tarefas e a eficácia de encaminhar assuntos, sem sair do lugar, com praticidade, êxito e economia de tempo e de recursos financeiros, encanta e enfeitiça crescente número de seguidores. Grande é o contingente de pessoas que prefere encaminhar seus assuntos online. A tendência, por óbvio, se infiltra no ofício pastoral de evangelização e o contamina. A praticidade, a agilidade e a eficácia garantidas pela informatização atrai crescente número de adeptos. Migra-se para uma ação pastoral digital. O número de pessoas que se alcança recorrendo a plataformas digitais é infinitamente maior do que se alcança pessoalmente. A questão crucial, todavia, apresenta-se mais profunda e mais interpelativa, em especial quando se foca a atividade pastoral: a prioridade é o virtual ou o presencial? Estar conectado ou estar disponível?
O ser humano anela por contato. É de sua natureza socializar-se, interagir com o semelhante. Nada substitui o prazer do companheirismo, de estar junto com alguém a quem se quer bem. Nada substitui o carinho de um toque afetivo. Nada substitui a terna cumplicidade e a profunda comunhão de olhares que se encontram. Nada alimenta mais a autoestima que um ouvido atento. Impensável é, e ridículo, servir um almoço familiar via internet! Ninguém quer reviver a dolorosa e sufocante experiência vivida no contexto da Covid-19, quando se era obrigado a manter-se isolado. Ansiava-se, na época, pelo rápido fim da pandemia justamente para poder sair, conversar. Encontrar-se, enfim. Vital é para o ser humano o convívio presencial. Mais urgente se torna quando o assunto é o espiritual, que engloba a experiência do cotidiano humano, com seus dramas e angústias que afligem a alma humana. Com as alegrias que se completam quando presencialmente compartilhadas. É neste nível concreto de contato presencial que se realiza a atividade pastoral, que a religião adquire densidade. E propósito! As pessoas em dificuldade querem encontrar alguém que as escute. Querem debater. Querem questionar. Sentir-se gente. Amadas e valorizadas, enfim! Telas azuis são frias!
Emerge a intuição do bispo asiático. Pregar sobre telhados não se restringe somente ao ambão da Igreja. Tampouco à plataformas digitais. Estas são ferramentas úteis, mas não esgotam a atividade pastoral. Fé, afinal, não se resume a doutrinas. Tampouco estaciona em mensagens, mesmo as mais comoventes. A vida espiritual amadurece com o contato presencial que cura a alma. Valoriza a pessoa. Resgata do limbo do anonimato. O telhado valioso, hoje, é a ocasião concreta que gera empatia, a circunstância peculiar que avizinha!
Deixe um comentário