Em defesa da arte sacra contemporânea , artigo do padre Paulo Sérgio Martins
A beleza não é propriedade de um estilo artístico, mas manifestação histórica da ação do Espírito Santo na Igreja; por isso, a arte sacra contemporânea pode ser tão autenticamente cristã quanto a arte medieval, renascentista ou barroca, desde que seja verdadeira, litúrgica e capaz de conduzir ao Mistério.
EM DEFESA DA ARTE SACRA CONTEMPORÂNEA
Pe. Paulo Sérgio Martins
Mesmo passados tantos anos da leitura do artigo “Igrejas modernas, ‘feias como o pecado’ X Igrejas tradicionais, antecâmaras do Céu” (Revista Catolicismo, 2006) permaneceu em mim um incômodo. Não propriamente com a defesa da arte tradicional, cuja importância é inegável, mas com a noção reducionista de beleza que o texto parece pressupor.
Hoje, as redes sociais agravaram esse cenário. Opiniões rápidas, vídeos curtos e discursos categóricos alcançam milhões de pessoas, enquanto estudos sérios sobre estética, liturgia, iconografia e arquitetura permanecem restritos aos especialistas. Assim, forma-se uma geração de sacerdotes, arquitetos e agentes de pastoral convencida de que fidelidade à tradição significa simplesmente reproduzir formas do passado. Multiplicam-se, então, igrejas que imitam estilos medievais ou barrocos sem possuir a mesma visão de mundo, a mesma técnica ou a mesma experiência espiritual que lhes deram origem.
A partir dessa inquietação, proponho algumas reflexões.
Deus fala em todos os tempos e em todas as culturas. Se acreditamos na ação permanente do Espírito Santo na história, também devemos admitir que Ele continua inspirando artistas, arquitetos e comunidades na tarefa de expressar, por meio da arte, o mistério divino. A arte é uma das manifestações mais elevadas do espírito humano em resposta à revelação de Deus.
Michelangelo trabalhou o mármore disponível em sua época; Aleijadinho transformou a pedra-sabão brasileira em linguagem de fé. Cada um utilizou os materiais, as técnicas e a sensibilidade de seu tempo. Se reconhecemos a beleza dessas obras, por que negar que a contemporaneidade também possa produzir beleza? Será que Deus deixou de inspirar os artistas depois do Renascimento ou do Barroco?
Frequentemente se atribui ao modernismo uma suposta ruptura definitiva com o sagrado, como se toda a arte produzida a partir do século XX estivesse inevitavelmente contaminada pelo secularismo, pelo racionalismo iluminista ou pelo antropocentrismo moderno. Trata-se de uma simplificação histórica. Nenhum movimento artístico pode ser reduzido às correntes filosóficas que lhe são contemporâneas. Da mesma forma que houve arte medíocre no período barroco e renascentista, também existem obras contemporâneas profundamente espirituais e artisticamente relevantes.
O problema reside na ideia de que exista uma única “verdadeira beleza”, localizada em determinado período histórico. Essa concepção, ainda que bem-intencionada, acaba por aprisionar o Espírito Santo em um estilo artístico específico. Contudo, “o Espírito sopra onde quer” (Jo 3,8). Cada época produz seus santos, seus místicos, seus poetas e seus artistas. Cada tempo encontra novas formas de cantar a mesma verdade.
Não é raro que aqueles que defendem exclusivamente a estética medieval ou barroca recorram a comparações desonestas. Colocam lado a lado obras-primas do Renascimento ou do Barroco e edifícios contemporâneos pobres arquitetonicamente, desprovidos de qualquer preocupação litúrgica ou simbólica. Com isso, concluem que toda arquitetura moderna é feia ou inadequada ao culto cristão. O mesmo procedimento ocorre com a pintura, a música e a escultura.
Entretanto, bastaria ampliar o repertório para encontrar igrejas, capelas, pinturas e projetos litúrgicos contemporâneos de extraordinária qualidade, capazes de conduzir à contemplação do mistério de Deus. No Brasil, a obra de Cláudio Pastro é apenas um dos exemplos de uma arte sacra profundamente enraizada na tradição da Igreja e, ao mesmo tempo, plenamente contemporânea.
A tradição da Igreja nunca foi mera repetição. Ela sempre foi continuidade criativa. As grandes catedrais medievais incorporaram conhecimentos construtivos herdados da Antiguidade. O Renascimento dialogou intensamente com a arte clássica pagã. O Barroco respondeu às questões espirituais da Reforma e da Contrarreforma. Cada período assimilou o passado para criar algo novo.
A própria história da evangelização demonstra que a fé cristã sempre se encarnou nas culturas. A arte bizantina, românica, gótica, barroca, latino-americana, africana e oriental, testemunham que a Igreja nunca conheceu uma única linguagem estética. A inculturação faz parte da própria missão cristã.
Talvez o verdadeiro desafio do nosso tempo não seja repetir estilos antigos, mas discernir como expressar, hoje, a beleza do Evangelho. O medo da contemporaneidade tem levado muitos a buscar segurança na reprodução de formas já consagradas. Contudo, repetir não significa necessariamente preservar a tradição. Em muitos casos, produz apenas simulacros desprovidos da força espiritual que animava os grandes mestres do passado.
Defender a arte sacra contemporânea não significa rejeitar o patrimônio artístico da Igreja. Pelo contrário. Significa reconhecê-lo em toda a sua riqueza e compreender que ele próprio nasceu da coragem de artistas que ousaram criar para seu tempo. A fidelidade à tradição consiste menos em copiar suas formas do que em participar do mesmo impulso criador que as tornou possíveis.
Por isso, seria desejável que a formação de seminaristas, sacerdotes, arquitetos e artistas incluísse um estudo mais amplo da história da arte, da estética, da liturgia e dos documentos da Igreja sobre arte e enculturação. Conhecer toda a tradição é também reconhecer que Deus jamais deixou de agir na história.
O Espírito Santo não pertence ao Barroco, nem ao Gótico, nem ao Bizantino. Ele continua agindo na contemporaneidade. A verdadeira questão não é recuperar a beleza de um passado idealizado, mas permitir que a beleza inspirada pelo Espírito floresça no presente.
Como escreveu alguém: “quem anda em labirintos tem sede de caminhos”. Também a arte sacra precisa caminhar, sem romper com sua tradição, mas sem deixar de escutar o Espírito que continua renovando todas as coisas.
Nossa tarefa não é fabricar a “verdadeira beleza”, como se ela estivesse definitivamente encerrada em um estilo artístico. Nossa missão é produzir, com humildade e coragem, a beleza que o Espírito inspira ao nosso tempo.
Pe. Paulo Sérgio Martins, Diocese de Araçatuba – Especialista em Espaço Litúrgico e Arte Sacra, Mestre em Filosofia e Doutor em Estudos Literários
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