Vacina, por padre Charles Borg

Invisíveis contam! A pandemia do COVID-19 confirma, de forma trágica, que mesmo invisíveis, germes têm potencialidade de provocar consideráveis transtornos. Hábitos inocentes e até impulsos afetivos podem originar sofrimento sem fim: um abraço dado em Araçatuba pode tornar-se causa de contágio numa cidade de Alagoas. Felizmente, o reverso da moeda também vale: inúmeros são os casos de pequenos gestos de carinho que ultrapassam fronteiras do espaço e do tempo e inspiram novas iniciativas generosas. Ninguém está no mundo simplesmente por acaso. Todo ser vivo contribui de alguma maneira para o bem do todo!

Ora, vírus como os da família corona, não sendo seres vivos, provocam enorme estrago porque agridem e ferem. Nada agregam, somente destroem. Ampliando o raciocínio, entende-se porque pessoas egoístas são tão nocivas para os ambientes por elas frequentadas, sejam de cunho familiar, trabalhista ou social. O desarranjo é sempre proporcional ao grau do egocentrismo. Quanto mais o sujeito se coloca como o principal referencial, mais nefastas ficam as consequências para os ambientes. Entende-se porque a corrupção é uma gravíssima praga em qualquer esfera de administração. O corrupto se apropria subjetivamente de uma riqueza que é, por natureza, coletiva.

Emerge o objetivo primeiro de toda iniciativa educativa, seja familiar, escolar, civil e religiosa. Educa quem conduz o educando a compenetrar-se da sua inata vocação a contribuir positivamente para o progresso do grupo ao qual pertence. É dado biológico que todo ser vivo instintivamente colabora para o bem estar coletivo. Nenhum ser vivo existe atoa ou por acaso! Constatação fundamental a induzir cientistas a concluir que vírus, como o corona, não são seres vivos. Existem enquanto invadem e danificam células.

O certificado de vitalidade de um ente encontra-se, por outro lado, no inerente impulso de evoluir. Educar, portanto, é dar condições ao cidadão de compenetrar-se de suas raízes e a elas corresponder evoluindo de acordo com a própria identidade. Educar é ajudar o educando a compenetrar-se do seu valor de protagonista no processo evolutivo do grupo ao qual pertence.

Na atual cultura, visibilidade e aparência são privilegiadas. Ambígua doutrina e totalmente injusto avaliar uma contribuição pela ressonância imediata do impacto produzido. Contribuições efetivamente substanciosas podem não receber tão célere reconhecimento. Nem por isso deixam de ser valiosas. Equivocadas aclamações não raramente se tornam motivo para desestímulos e desistências. O perspicaz educador insistirá com seus orientados a não mirar uma popularidade efêmera, mas dedicar-se a uma real e substanciosa contribuição.

Nestes tempos turbulentos de pandemia as aspirações estão todas voltadas ao desenvolvimento da vacina salvadora. Ingentes recursos são investidos, corretamente, nesta direção. Urge lembrar, todavia – mais correto seria dizer, educar – que o vírus deve ser combatido justamente em sua raiz constitutiva: existe porque agride.

Ele sobrevive e se espalha porque conta ainda com outro reforço de cunho egoísta, a desatenção para com o próximo – este bicho feio não resiste à água e sabão! A logística mais eficiente e mais inteligente para enfrenta-lo deve concentrar-se, pois, num comportamento objetivamente altruísta. Agir com responsabilidade para com o próximo constitui a mais poderosa arma para combatê-lo.

Miúdos cuidados de atenção e de consideração – higiene, distância prudente, máscaras – se transformam em valiosas, e facilmente acessíveis, ‘vacinas’ contra esse perverso patógeno. Banir o descaso é decisivo. Evoluir no cultivo do respeito é natural imperativo! Pequenos gestos contam! Educar e crer!

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